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Professores: Descodificação e a compreensão dos textos são as grandes dificuldades que os alunos encontram na leitura

A maior parte dos alunos do ensino básico e secundário das escolas em Cabo Verde depara com dificuldades na descodificação, na compreensão e na interpretação durante a leitura dos textos de língua portuguesa.

A informação foi avançada hoje à Inforpress, por alguns professores de língua portuguesa que participam na IV jornadas de Língua Portuguesa – Investigação e Ensino, na Cidade da Praia, organizada pela Cátedra Eugénio Tavares de Língua Portuguesa.

 

A jornada que arrancou na quarta-feira e termina na sexta-feira, destacou no período da manhã de hoje o tema “Dificuldades de leitura: avaliação e intervenção”, ministrado pela professora da Universidade do Minho, em Portugal, Irene Cadime.

 

Abordados pela Inforpress, os professores Fausto Furtado, Hulda Costa e Adalgisa Ferreira identificaram a descodificação, a compreensão, e a interpretação dos textos com uma das principais dificuldades na leitura.

 

“A leitura exige sempre a descodificação, que é compreender grafemas, fonemas, saber interpretar os sons, mas também em termos de interpretação. Se o aluno não conseguir interpretar e não conhece o léxico tem grandes dificuldades de leitura e de escrita”, apontou o professor da Cidade da Praia, Fausto Furtado.

 

Para este professor, a questão do bilinguismo tem criado um pouco de dificuldade na leitura, pois os alunos têm o crioulo como língua materna e o português como língua segunda, e a seu ver, se os alunos tivessem a língua portuguesa como a língua materna, certamente, teriam menos dificuldades em interpretar e em ler textos.

 

A introdução da língua crioula em algumas escolas do ensino básico do país, para este professor, que atualmente trabalha na Direção Nacional da Educação, é um caminho para ajudar os alunos a compreender melhor a transposição de uma língua para a outra.

 

“Quando forem confrontados com a língua portuguesa vão sentir menos dificuldades, porque já conhecem a transcrição da língua materna para a língua portuguesa”, sublinhou.

 

Se na Cidade da Praia os alunos estão com essas dificuldades, no interior da ilha de Santiago, onde domina a língua cabo-verdiana, os alunos têm tido ainda uma maior dificuldade na descodificação, na compressão oral devido a interferências fonológicas e na interpretação dos textos.

 

Segundo a professora Hulda Costa, no interior, a possibilidade que os alunos têm de ouvir a língua portuguesa são poucas ou raras e isso dificulta a compreensão.

 

“Temos uma realidade difícil em Cabo Verde porque a nossa vida é feita praticamente 99,9 por cento em língua cabo-verdiana e os nossos alunos não têm muita possibilidade de ouvir a língua portuguesa, e só ouvem o professor de Português, que fala e que exige que eles falam”, disse essa professora que trabalha na Escola de Santa Catarina, observando ainda que os professores de outras disciplinas não têm utilizado a língua portuguesa nas salas de aula, o que dificulta ainda mais a aprendizagem dos alunos.

 

Como estratégia, Hulda Costa tem lido os textos durante os testes para facilitar a compreensão dos alunos e ainda tem trabalhado de forma individual com os alunos com mais dificuldades, pois considera que “os 50 minutos na sala de aula não tem sido suficiente para fazer com que os alunos tenham um nível maior de compreensão do português”.

 

Por sua vez, a professora e coordenadora de Língua Portuguesa na Escola Secundaria Carlos Alberto Gonçalves, Adalgisa Ferreira, afirmou que pelo facto de os alunos lerem pouco dificulta ainda mais a compreensão dos textos.

 

Na sua constatação, os alunos ao interpretarem um texto só conseguem responder as perguntas mais simples ou diretas, mas quando se trata de perguntas menos diretas e que exige mais deles, já não conseguem responder.

 

Conforme disse, é preciso trabalhar essas dificuldades desde o ensino básico, porque “se o problema não for resolvido de raiz” quando chegarem ao ensino secundário “o problema vai se agravando”, dando menos margem aos professores para os ajudar, pois estes têm pouco tempo e um programa para cumprir.

 

Apesar de não conhecer os problemas por que passam os alunos cabo-verdianos, mas pelo ‘feedback’ dos colegas cabo-verdianos, a conferencista e professora na Universidade de Minho, em Portugal, Irene Cadime, disse terem concluido que as competências linguísticas e orais têm de ser um foco de trabalho e de promoção quando se fala na alfabetização e no ensino explícito da leitura.

 

A mesma fonte recomendou os professores a definirem, primeiramente, o perfil das dificuldades de cada aluno, uma vez que os alunos podem estar no mesmo nível de escolaridade, mas podem ter dificuldades completamente distintas.

 

Depois disso, em função da dificuldade, os professores traçam estratégias e priorizam se vão trabalhar para melhorar às competências linguísticas dos alunos ou se vão trabalhar nos processos básicos de descodificação e de reconhecimento de palavras, indicou.

 

As IV Jornadas de Língua Portuguesa – Investigação e Ensino, que terminam esta sexta-feira, têm ainda em debate temas como “Avaliação em Língua Portuguesa- a outra face da docência: elementos da tradição, pontos fortes da modernidade e caminhos de renovação”, “Práticas de avaliação do ensino da Língua Portuguesa numa escola secundária de Cabo Verde: Contributos para uma avaliação formativa” e “Análise das estratégias de correção do erro na produção escrita”.

 

“Avaliar para apreender e ensinar: desafios na educação ligústica em português para falantes de outras línguas, “Que português esperamos ler e ouvir de nossos educandos? Aonde eles vão chegar com esse Português? A relação entre expectativas de aprendizagem e critérios de avaliação do português em uso”, são outros painéis em debate.

 

A iniciativa da Cátedra Eugénio Tavares de Língua Portuguesa é financiada por Camões – Instituto da Cooperação e da Língua e tem o apoio da Direção Nacional de Educação do Ministério da Educação, da Embaixada do Brasil em Cabo Verde e do Leitorado Brasileiro em Cabo Verde.

 

SAPO c/ Inforpress

 

08 de novembro de 2018

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